Vinte e três horas. A rua está um breu, a ladeira é longa, as fracas luzes dos postes iluminam quase nada o trajeto. Os galhos das árvores dançam ao ritmo do forte vento. Frio, muito frio, sob uma fina garoa um homem anda apressado, esconde as mãos no bolso, esquecera as luvas na gaveta do armário. Mais dez minutos chegará em casa.
Numa parte um pouco mais iluminada, dentre as vielas, uma grande sombra surge inesperada, manchando o velho paredão. Aos poucos a única sombra se desdobra e adquire o tamanho de duas pessoas de estatura mediana. O asfalto está molhado, o homem aperta o passo discretamente, a cada passada as poças d’águas respingam gostas sujas sob a barra da calça. Ainda está na metade da ladeira. Percebe que está sendo perseguido por outros dois homens. Chegando cada vez mais perto, logo os dois homens passam apressado ao seu lado. Numa distância de cinco metros, o solitário homem é abordado pelos outros dois:
─ Você é professor da Escola da rua debaixo?
─ Sou sim, responde o homem.
─ Então, é o seguinte, é que tem um garoto ai, que é nosso truta, ele ligô pra nóis que o senhor foi arrogante com ele na sala de aula.
─ Eu ?
─ É, o senhor tem que tomar cuidado, porque às vezes vê o moleque na escola, bem vestido, ai pensa que ele é bóizinho. Mas ele trafica pra nóis, o moleque é correria.
O Professor olha para os dois lados da rua, não vê ninguém além de dois sujeitos mal encarados que resolveram tirar satisfação àquela hora da noite. O jeito era tentar se defender das acusações que lhe eram feitas, não tinha saída:
― Então... o moleque trabalha pra vocês?
― Pode crê, o moleque é nosso truta.
― Olha, a parada é o seguinte, eu moro no bairro há trinta anos, não tenho preconceito com traficante, conheço uma pá de cara na Favela da Ponte, no Morro da Bexiga, tenho muitos amigos que traficam também.
Os dois homens ouvem atentos as justificativas, tratava-se de um julgamento ao ar livre em pleno início de madrugada. O professor sabia que tinha de ser convincente, conhecia a severidade dos julgamentos praticados pela bandidagem, se demonstrasse insegurança poderia ser julgado culpado e sofrer sua pena ali mesmo Respirou fundo discretamente, sem que os dois homens reparasse a tensão que estava, com se estivesse diante de um juiz, o professor continua:
― Gente, eu não sou bobo de ficar peitando aluno dentro da escola.
― Mas o moleque falou que o senhor ficou tirando ele na sala. A gente até pensou em te esperá na saída da escola, tinha até uns cara aí querendo te dar um coro.
― Você tem que perguntar pro moleque o que ele fez pra mim. Porque ninguém faz nada pro outro assim de graça.
― Foi o que a gente perguntou pra ele.
― Então... olha, eu não tô lembrado do moleque não, tenho mais de quatrocentos alunos, é difícil saber quem é. Vamo fazê o seguinte: vamo chama o garoto e trocar idéia nós quatro e resolvê essa parada pra não ficar conversa atravessada. Vamos leva um papo reto.
― Não professor... deixa quieto... a gente só veio trocar idéia pra saber a real tá ligado? Pode ficá frio que não vai pegá nada pro senhor não.
― Eu só quero deixar tudo resolvido. Vocês me vêem passando aqui toda noite, quero poder andar sossegado.
― A gente vai dá uma idéia no moleque e falá pra ele fica suave na escola. Firmeza?
― Meu, tranqüilo, da minha parte, se ele quizé, pode me procurar na escola que ninguém vai saber sobre a nossa conversa. É só ele e eu.
― Firmeza professor, por enquanto deixa no gelo.
Em poucos segundos, os dois homens mal encarados desaparecem na escuridão. O professor seguiu seu caminho e só foi pensar no perigo que passou dez minutos depois, em casa, sentado no sofá da sala.
Um comentário:
Ae! Muito bom! Situação verossímil, bom manuseio da língua oral no diálogo! Meu trabalho da pós fala justamente sobre oralidade. Gostei bastante.
E não pare de postar! :)
bjs!
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