bem-vindo!

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Crônica sequaz para um amigo


FOI NUM domingo, final de uma preguiçosa manhã. Exaustos após a pelada semanal, quatro amigos voltavam para casa de carro pela Régis Bitencourt, felizes e orgulhosos por mais uma vitória do time do bairro.

De repente, um carro desgovernado, guiado por um motorista alcoolizado, invade a pista na contramão e acerta em cheio o carro dos amigos peladeiros. Zé Maria, sentado no banco traseiro, ainda vestido com a bermuda do uniforme do time, é quem mais sofre com o desastre: o adversário atinge certeiro do meia-atacante.
Sobreviver ao acidente é tido como um milagre por todos. Aos dezoito anos de idade, Zé Maria engorda as estatísticas dos acidentes de trânsito na cidade de São Paulo e ingressa para a classe dos deficientes físicos: perde a visão lentamente até atingir o estado irreversível.

Essa história poderia ser um dramalhão mexicano, no entanto, ela é trágica. A diferença entre tragédia e drama está na dignidade contida na primeira: tragédia é o inevitável, drama é o sofrimento.

Mas é na tragédia que surgem os grandes personagens. Zé Maria não se deixou abater porque, como ele mesmo diz, “quem fica parado é poste”. Zé usou a deficiência adquirida para aprimorar a audição: aprendeu línguas, se aperfeiçoou no violão.

Corajoso aprendeu a andar com a guia, a ler em braile.

Audacioso cursou a faculdade de Letras, superou todas as dificuldades e não deu bola para o preconceito.

Zé Maria nunca culpou o destino ou Deus, nem mesmo seu algoz.

Perfeitamente adaptado à vida, Zé está casado e feliz, não vive de lamentos e sabe que pode ir mais além: sonha fazer testes com célula-tronco e ajudar a ciência encontrar uma solução para a deficiência visual, se não para ele, ao menos para quem no futuro tiver o mesmo destino que o seu.

Hoje Zé, penso em você, meu amigo, na sua obstinação, na sua força de vontade, e tento dar um bico na minha tristeza sem razão.

Nenhum comentário: